O universo da cibercultura e da convergência de mídias

Você já deve ter ouvido falar em algum momento sobre os termos “cibercultura” e “convergência de mídias”. De acordo com Pierre Levy, a cibercultura é um movimento social sustentado principalmente por três pilares: a interconexão, as comunidades virtuais e a inteligência coletiva. No caso da convergência de mídias, Henry Jenkins a descreve através do comportamento migratório dos meios de comunicação e da cultura participativa em que isto implica.

Vamos conversar um pouco mais sobre os temas para entender melhor esses conceitos e começar a perceber as consequências de viver num mundo cibercultural e convergente.

Convergência de mídias

Em 2005, David Dias repetia nas aulas de Publicidade e Propaganda da ESPM, aqui em São Paulo, sobre o futuro da comunicação: convergência de mídias. O que ninguém dava muita bola naquele tempo, uma década depois se tornou disciplina obrigatória em outros centros universitários, como na vizinha Belas Artes – a matéria de Convergência de Mídias, Redes e Compartilhamento foi criada justamente pra falar sobre essa necessidade emergente que temos de entender a dinâmica da comunicação.

No dicionário, o termo convergência aparece como aquilo que “caminha para o mesmo ponto ou objetivo”. E é basicamente isso que acontece quando falamos em convergência de mídias: tudo vai e volta para um ponto central – a Internet. Através dela, deixamos de viver no mundo da comunicação unidirecional, em que grandes empresas atuavam como emissores das mensagens, e nós, usuários, leitores, consumidores, tínhamos apenas a figura do receptor. Quando a Internet passa a ser parte integrante, um item básico da sociedade, observamos um processo de midiatização, no qual as pessoas têm voz e se tornam todos emissores. É o que chamamos também de cultura participativa.

Os usuários deixam de apenas consumir as informações que lhe são destinadas e começam a também emitir suas opiniões. Um bom exemplo para o processo de midiatização e convergência de mídias são as interações que ocorrem entre usuário e marca em redes sociais como Twitter e Facebook. Quando o consumidor não se sente satisfeito com algum produto ou serviço, ele tem à disposição a gigantesca rede mundial da Internet, seja através de um post ou um tweet. A capacidade de repercussão é tanta, que as empresas passaram a se preocupar com esse poder, ouvindo seus consumidores e levando em consideração suas opiniões para feedbacks positivos ou negativos.

Esse cenário, que antes não existia nos processos de comunicação de massa, se torna premissa básica quando falamos de convergência de mídias.

Cibercultura

Como dissemos, cibercultura é um movimento social. O local de atuação desse movimento é o que chamamos de ciberespaço. Pensando no ciberespaço, a palavra “ciber” aqui age como prefixo, geralmente nos remetendo a algo tecnológico. Mas nesse caso, a abrangência é bem maior: a Internet é constituída de inúmeras fontes, entre elas as redes independentes de empresas e instituições de ensino e as mídias clássicas, como as bibliotecas e museus. Então, por lógica, não seria correto afirmar que o ciberespaço é constituído somente da Internet, pois há inúmeros fatores que a alimenta e a fez ser o que é hoje, muito antes de ela existir.

Assim como o tema de convergência de mídias se tornou tema de disciplina obrigatória, na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), os alunos de todos os cursos, desde Sistemas de Informação até Gestão Ambiental, têm como opção em seu ciclo básico a disciplina de Cultura Digital. A matéria oferece uma visão social do tema, discutindo o processo de formação das sociedades modernas e o papel da cultura, com foco na influência da tecnologia e dos meios de informação e comunicação contemporâneos.

O filósofo e sociólogo Pierre Levy descreve esse movimento com três características:

  • Interconexão

Para Levy, essa é a mais forte característica da cibercultura e do ciberespaço. Por interconexão, entendemos a comunicação universal, ou seja, em suas palavras:

Cada computador do planeta, cada aparelho, cada máquina, do automóvel à torradeira, deve possuir um endereço na Internet.

Esse conceito parece familiar? Pois, nos dias de hoje, a interconexão está refletida no que chamamos de Internet das Coisas. Através da conexão das diversas “coisas” com as quais interagimos no dia a dia, conseguimos um experiência sensorial inteligente que pode, por exemplo, ajustar a temperatura da sua casa quando o termômetro perceber pelo seu GPS que você está se aproximando de casa. É o que Levy chama de “telepresença generalizada”.

Diversos dispositivos já trazem consigo o conceito de IoT. Um exemplo deles são as pulseiras Nike+ FuelBand SE, que registra os movimentos do usuário e o ajuda a entender melhor sua saúde. Os dados registrados são todos armazenados pelo smartphone, sendo possível receber avaliações sobre seu desempenho.

  • Comunidades virtuais

Entendemos melhor o conceito de comunidades virtuais porque quase todo mundo faz parte de alguma, podendo até mesmo ser um grupo de discussão no Facebook sobre o mais remoto tema. O que caracteriza uma comunidade virtual são as afinidades de interesses e conhecimentos, num processo de troca e cooperação. E, sim, isso é bastante abrangente. É por isso que vemos tantos grupos em diversos canais da Internet.

  • Inteligência coletiva

Além de ser utilizado para diversas formas de entretenimento, o ciberespaço tem também um papel na construção da inteligência coletiva. Por ser um campo aberto de problemas e pesquisas práticas, o ideal na cibercultura é colocar em sinergia os saberes numa espécie de contribuição intelectual. Diferente das comunidades virtuais, que se juntam através de afinidades, mesmo que seja por lazer, a inteligência coletiva reúne diferentes pessoas em busca da solução de um mesmo problema ou de uma construção palpável acerca de um tema.

Os inúmeros fóruns que encontramos na Internet são exemplos básicos para a inteligência coletiva da cibercultura, como o Stack Overflow e o Yahoo Respostas. Cada pessoa constrói em cima de uma problemática, contribuindo com sua vivência, visão e experiência sobre o assunto. Nossos grupos de discussão para cada curso também podem servir de modelo para inteligência coletiva.

De que forma esses temas conversam entre si?

Quando pensamos no momento em que vivemos, no âmbito da comunicação e da evolução do mundo digital, fica clara a relação existente entre a cibercultura e a convergência das mídias – uma depende da outra, e elas crescem proporcionalmente. Quando se fala em cibercultura, a existência (e abrangência) das comunidades virtuais e o crescimento dos conteúdos de inteligência coletiva implicam necessariamente na Internet como um espaço colaborativo, interativo, comunitário. E é justamente com a existência de uma comunicação multidirecional como a Internet que podemos observar a convergência das mídias.

Dessa forma, podemos compreender o comportamento dos consumidores dos dia de hoje, baseado no grande poder que lhes é investido cada vez mais. As organizações entendem que as pessoas têm agora um espaço de fala, caracterizado pela cultura colaborativa e pelos processos de midiatização.

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